A armadilha do “mais”

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João R. Pontes

Conselheiro de Empresas | Executivo C-Level | Advisor | Board Member

Meu amigo Mauricio Lopes, pesquisador e ex-presidente da Embrapa, publicou um artigo que merece atenção de quem está no agro e em conselhos.

Maurício defende que durante décadas o pensamento agrícola se organizou em torno de uma crença: ciência e tecnologia são heróis para expandir “quase indefinidamente” a produção de alimentos além da área de um solo. E é verdade o que esse binômio convergente vem fazendo na história do agro. A Revolução Verde, a agricultura tropical, os ganhos de produtividade transformaram o Brasil em uma potência alimentar.

Mas há uma armadilha nessa trajetória que é confortável não percebermos. Solo, água e clima são recursos finitos. Quando sistemas agrícolas operam além dos limites por um longo tempo, a capacidade produtiva começa a se deteriorar. Silenciosamente. O problema não aparece no resultado do trimestre. Aparece depois, mais caro e mais difícil de reverter.

O autor aponta ainda que sistemas mais intensivos em conhecimento científico operam sob pressão permanente para expandir produção e reduzir custos. Esse modus operandi entra em choque com as exigências crescentes de sustentabilidade. Reduzir emissões, conservar biodiversidade, proteger solo e água, tudo isso precisa coexistir com a necessidade de garantir renda ao produtor.

Primeira nota deste post:esperar que esta decisão entre lucro e perenidade seja simples é ignorar a complexidade do sistema. E em ato contínuo, o que precisamos como líderes é nos posicionar e decidir na estratégia.

Há outro ponto que merece ser dito: produzir mais não resolve a fome. Alimentar a população está muito mais associado a acesso, distribuição e organização social do que à insuficiência de oferta global.

Aqui vai a segunda nota do post: tratar um problema de governança como se fosse um problema de volume é um diagnóstico incompleto.

O que ele defende não é abandonar a busca por eficiência e produtividade. É permitir que a ciência agrícola concentre esforços no que se torna central neste século: a sustentabilidade dos sistemas produtivos, a adaptação climática e o fortalecimento da resiliência do campo.

Esse padrão não é exclusivo do nosso setor. Operações que crescem além da estrutura que as suporta, resultados que animam no curto prazo e encobrem fragilidades que chegam depois. Isso acontece nas empresas e nas cadeias produtivas inteiras.

O agro que queremos para o futuro será definido menos pela capacidade de produzir mais e mais pela habilidade de produzir dentro dos próprios limites, com tecnologia. Medir as coisas certas é, talvez, o maior desafio estratégico do agro neste século. Até mesmo porque produzir com inteligência sempre foi mais difícil do que produzir com volume.

É a condição 𝘴𝘪𝘯𝘦 𝘲𝘶𝘢 𝘯𝘰𝘯 para a prosperidade.

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