É NOS DETALHES QUE MORA A DIFERENÇA

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João R. Pontes

Conselheiro de Empresas | Executivo C-Level | Advisor | Board Member

Um conselheiro que só lê sobre o próprio setor é um conselheiro com “visão de corredor”. Estreito e com apenas duas mãos para circular. Muito pouco para a fiel dimensão do que um Conselheiro precisa aportar. Parte do meu processo é buscar referências fora do agro, em comportamento humano, movimentos de inovação, novos designs de decisão. Conhecimento que, na maioria das vezes, me fornece uma lente nova. Cresço com o aprender constante. Foi assim que cheguei em Rory Sutherland.

Publicitário britânico e Vice-Chairman da Ogilvy, Sutherland passou décadas observando fenômenos em uma perspectiva além do óbvio.

Um exemplo icônico. Em sua TED Talk “Sweat the Small Stuff”, ele coloca uma questão que reorganiza a forma de pensar o problema: em vez de gastar seis bilhões de libras para fazer o trem entre Londres e Paris chegar quarenta minutos mais rápido, por que não contratar alguém para servir champanhe a bordo? As pessoas pediriam para o trem ir mais devagar! A verdadeira raiz do problema não era o tempo dentro dele, mas a experiência. No mesmo raciocínio, placas que mostram uma carinha feliz ou triste para motoristas fora da velocidade reduzem acidentes com mais eficácia do que câmeras com multa real. Em ambos os casos, acolher o detalhe foi a solução.

É uma tese séria. Por que um detalhe tem tanto poder? A neurociência tem uma resposta.

O cérebro humano consome cerca de 20% da energia do corpo. Para preservar recursos, desenvolveu atalhos cognitivos que aceleram decisões. Somos a espécie mais complexa do planeta, com 86 bilhões de neurônios e trilhões de conexões sinápticas, mas isso não nos torna necessariamente racionais. Quando acreditamos estar decidindo de forma lógica, grande parte da escolha já foi silenciosamente pré-processada por emoções, memórias, hábitos e contexto.

Isso acontece também dentro das organizações. Buscar soluções grandes para problemas que, muitas vezes, têm origem pequena. Investimentos e projetos são estruturados, enquanto o verdadeiro ponto de alavanca estava num detalhe que ninguém parou para elaborar. Outros exemplos de situações mais cotidianas?

A ordem dos itens em uma pauta de reunião condiciona o tom de toda a discussão. O que entra primeiro ativa um estado mental que permanece ao longo de toda a sessão. O tom da primeira frase de uma mensagem difícil decide, em milissegundos, se o interlocutor entra em modo de abertura ou de defesa. O que vem depois quase não importa. Nenhum dos dois é estratégia. São detalhes que o cérebro processa antes que a razão entre na sala.

Liderança também se faz de atenção. Não apenas ao que é grande, mas ao que é pequeno, silencioso e determinante. São os detalhes que o cérebro processa antes da razão que definem o resultado que a estratégia não conseguiu. Pequenas mudanças, feitas com intenção, decidem o que grandes planos não alcançam.

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